Os concílios


A conversão do imperador Constantino à fé cristã, no ano de 313, pôs fim às perseguições de que os cristãos, perigosos para a ordem estabelecida, tinham sido vítimas até ao momento, e fez do cristianismo a religião oficial do Império romano. Este acontecimento capital acelerará o movimento dos teólogos para uma reflexão cada vez mais impelida sobre o mistério de Cristo, com a ajuda das categorias gregas de pensamento da época, e bem assim para a sua cristalização doutrinal. 

Este movimento resultante da tensão sempre renovada entre interpretações unilaterais do Evangelho, as "heresias," por um lado, e o esforço de correção das intuições autenticamente evangélicas, por outro, será vivido por toda a Igreja nos "concílios," assembléias cujos membros representavam as diferentes regiões do mundo cristão da época. 

Para corrigir o erro de Ario, que punha em questão a identificação total de Deus em Cristo, afirmando que este último não era Deus "de uma forma perfeita," o Concílio de Nicéia (em 325) proclamou que Cristo era "da mesma natureza," que Deus Pai. Salvaguardará assim, com a ajuda das categorias de pensamento "objetivas," o mistério do Evangelho: Deus não é uma realidade abstrata "no céu," mas Ele é tal como Jesus o manifestou na sua pessoa, na sua vida e na sua morte humanas. 

Esta elaboração doutrinal iria levantar a questão de saber como é que Deus, uno e único, poderia aparecer ao mesmo tempo sob o aspecto de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

O 1.° Concílio de Constantinopla (em 381, the second Eucumenical Council), seguindo os grandes teólogos da Capadócia, Basílio, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo, responde que em Deus a unidade absoluta é inseparável de uma diversidade de "pessoas" não menos absoluta. Este paradoxo sublinha que, para o Evangelho, a realidade de "Deus" não se pode comparar à fria unicidade matemática do número "um," mas que Deus é em si mesmo plenitude de amor e de comunhão recíproca. 

Muito naturalmente, na seqüência destas tomadas de consciência dogmáticas, os teólogos interrogaram-se perante as especulações por vezes aberrantes das multidões, como definir a pessoa de Cristo, sem todavia afetar o seu mistério. Foi obra dos concílios seguintes realizar, após muitas discussões, por vezes bem confusas para o espírito do homem de hoje, esta explicação necessária. 

O Concílio de Éfeso (431) insistiu sobre a pessoa real de Cristo - Jesus não é uma espécie de fantasma teleguiado por Deus - enquanto que o Concílio de Calcedônia (451) deveria formular de maneira paradoxal - as categorias da fé não são as da razão - o escândalo da irrupção de Deus na realidade do homem, tal como ele apareceu na mesma pessoa de Jesus: "Cristo" é "verdadeiro Deus e verdadeiro homem," "que se dá a conhecer em duas naturezas, sem mistura, sem alteração, indizivelmente, inseparavelmente..." 

Assim foi mantida, contra todos aqueles que, por dúvida inconsciente, queriam fazer de Cristo ou um super-homem, ou, o que ia dar no mesmo, um pequeno deus, a intuição fundamental dos Evangelhos que nós encontramos desde as origens do Cristianismo: a pessoa, a vida, a morte e a pregação de Jesus de Nazaré significam que, claramente, e sem nenhum compromisso, o "Absoluto," a "última realidade," "Deus," não se deve procurar no céu, mas no meio da realidade terrestre, humana. 

Os concílios seguintes (realizados em Constantinopla em 553 e 680) aprofundaram esta explicitação, sublinhando particularmente que a Encarnação de Deus quer ser compreendida de forma dinâmica: em Cristo, a "energia" de Deus penetra na natureza humana e a humanidade encontra-se transformada "como o ferro vermelho pelo fogo." 

Em resposta aos "destruidores de imagens," pertencerá ao último concílio ecumênico, realizado em Nicéia. em 784 - último concílio "ecumênico." uma vez que todos os que se lhe seguiram não reuniram mais do que uma fração da cristandade e já não a sua totalidade - tirar a derradeira conseqüência da penetração de Deus no mundo criado: A presença de Deus não é somente comunicada pela palavra humana, mas também por representações artísticas executadas num espírito de oração, os ícones. Estas representações de Cristo e dos santos, diz o concílio, servem para "provar a Encarnação verdadeira e não ilusória de Deus o Verbo." O Deus do Evangelho não se opõe, por isso, à matéria que como toda a realidade, é da ordem do Reino.

Se a conversão de Constantino permitiu à Igreja aprofundar em paz e segurança o mistério da nova fé, a proclamação do cristianismo como religião do Império terá, entretanto, muito graves conseqüências, pelo fato da identificação crescente entre a Igreja e o Estado - e também intervenções que, por esta razão, os imperadores se permitirão na vida interna da Igreja. E sobretudo, em vez de permanecer a Novidade absoluta que põe radicalmente em questão o homem que ela confronta, a presença de Deus tenderá cada vez mais a fundamentar uma moral mais ou menos aceitável para todos, uma moral, já nesta época, marcadamente burguesa: é "cristão" aquele que não faz mal, aquele que se ocupa tranqüilamente dos seus negócios pessoais sem comprometer a segurança do Império cristão. 

Deste modo, a Igreja aceitou, por assim dizer sem pestanejar, a brutal repressão pela polícia imperial, da "heresia" donatista de que os adeptos norte-africanos estavam desejosos, certamente de uma forma unilateral e exagerada, de preservar a exigência de absoluto do cristianismo, recusando particularmente a reintegração na comunidade da Igreja àqueles que tivessem renegado a sua fé por medo das perseguições. 


Assim devia nascer o corpus cristianun, a "cristandade." em cujo quadro a irrupção em Cristo de uma vida nova que obriga o homem a tomar uma decisão pessoal era doravante identificada, ao menos parcialmente, à criação de instituições, leis, obras a que se daria o qualificativo muitas vezes abusivo de "cristãs."

A instalação confortável da Igreja no Império, a perda que daí resultou da mensagem irredutível e absolutamente incômoda do Evangelho, devia forçar então muitos cristãos sinceros a viver a exigência da sua fé, não mais no martírio, agora impossível, mas na vida solitária, no deserto. Era lá, no seguimento de S. Antão (nascido em 250), e sobretudo de S. Pacômio, que milhares de crentes iam viver, na sua própria existência, o anúncio profético do Reino de Deus que havia de vir. O deserto hostil julgava-se estar povoado de demônios de toda a espécie que o eremita cristão era chamado a combater em campo. 

O combate sangrento das arenas dava lugar ao combate não menos exigente, e por vezes mortal, do monge contra as forças interiores do nada que habitam em cada homem, mas que segundo as concepções da época, eram "visualizadas," projetadas nas aparições demoníacas. A castidade destes atletas(tratava-se de um qualificativo que freqüentemente lhes era dado) bem como os seus jejuns e as suas mortificações solitárias eram outros tantos sinais para eles mesmos e para o mundo de que, em Cristo, a nova realidade de Deus não podia nascer no homem senão através da morte, provisória, do homem natural. Os excessos aos quais estas práticas por vezes deram lugar - é o caso dos "estilitas" (monges que passavam a vida empoleirados no cimo de uma coluna), os "dendritas" (que habitavam nas árvores), etc. - não devem fazer-nos esquecer que o monaquismo primitivo recordou efetivamente à Igreja da época o caráter absoluto da interpelação evangélica.

CONTINUA...

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