Apokatastasis, o que é isto?
A idéia de que todos os seres, incluindo demônios e satanás, podem (possibilidade) ser salvos no final dos tempos é conhecida como Apocatástase (apokatastasis), uma doutrina que, embora controversa e em grande parte rejeitada pela ortodoxia dogmática, teve defensores entre santos e místicos da tradição oriental. os principais detalhes sobre essa perspectiva na tradição da Filocalia e na ortodoxia:
- São Gregório de Nissa: É o nome patrístico mais importante associado a essa visão. Ele ensinou que a punição dos demônios e dos ímpios não seria eterna, mas corretiva, levando à restauração final de toda a criação a um estado de perfeição, onde Deus seria "tudo em todos".
- São Isaac, o Sírio (também conhecido como Isaque de Nínive): Místico e asceta cujos escritos influenciaram a Filocalia. Ele é frequentemente citado por expressar esperança na misericórdia infinita de Deus, sugerindo que o tormento no "inferno" não é infinito e que a restauração é possível.
- O Coração Misericordioso: Em sua obra, ele descreve o "coração que queima de amor por toda a criação", o que inclui seres humanos, aves, animais e até mesmo os demônios.
- Oração pelos Inimigos da Verdade: Isaque afirmava que o verdadeiro místico reza com lágrimas até pelos "adversários da verdade" (os demônios), pedindo que sejam preservados e purificados.
- Gehenna (Inferno) como Amor: Ele não via o inferno como um lugar de punição vingativa, mas como o sofrimento de quem se sente incapaz de responder ao amor avassalador de Deus. Em sua visão, esse amor poderia, eventualmente, levar ao arrependimento de todos os seres.
- Contexto da Filocalia: A Filocalia é uma antologia de textos ascéticos e hesicastas (focados na oração interior/oração de Jesus). Embora o hesicasmo não se baseie na apocatástase, alguns dos autores contidos nela (ou influenciados por ela) contemplaram a profundidade da misericórdia divina que transcende a justiça humana.
- Condenação da Apocatástase: É importante notar que a Igreja Ortodoxa, no II Concílio de Constantinopla (553 d.C.), anatemizou a doutrina da apocatástase de Orígenes (que incluía a restauração final dos demônios).
- Santo Paisius Athonite: Um santo moderno ortodoxo que, segundo relatos, orou pela salvação dos demônios, mas concluiu que Deus está pronto para aceitar até eles, se se arrependerem, mas eles próprios, em sua soberba, não querem a sua salvação.
Porém, a visão da salvação universal (apocatástase) de demônios é considerada uma opinião teológica pessoal (theologoumenon) de certos Pais, não uma doutrina dogmática da Igreja, que ensina a eternidade do inferno para os rebeldes impenitentes.visões sobre a salvação universal sejam amplamente respeitadas como uma "esperança piedosa" no misticismo oriental, a doutrina oficial da Igreja Ortodoxa mantém a cautela sobre a afirmação dogmática de que os demônios serão de fato salvos.
Na Igreja Ortodoxa,
a questão da eternidade do inferno é um dos temas mais profundos, onde a definição de dogma e a esperança mística frequentemente se encontram em tensão.O Dogma: A Condenação é Eterna?
O ensino oficial e dogmático da Ortodoxia, consolidado nos Concílios Ecumênicos (especialmente o Segundo Concílio de Constantinopla em 553 d.C.), afirma a eternidade da condenação para os rebeldes impenitentes e para os demônios.
- Rejeição da Apocatástase: A Igreja condenou formalmente a doutrina da "restauração de todas as coisas" (apocatástase) como uma certeza dogmática. Ou seja, não se pode ensinar que o inferno obrigatoriamente terminará para todos.
- O Estado do Inferno: Para os ortodoxos, o inferno não é um lugar físico de tortura criado por Deus, mas a experiência da presença de Deus por quem O rejeita. O mesmo "fogo" que ilumina os santos é o que queima os impenitentes como um remorso eterno.
A Natureza da Punição: "Até pagar o último centavo"
A distinção entre a "eternidade do inferno" e a "eternidade da punição" toca em uma interpretação presente em alguns Padres da Igreja, mas que não é o dogma majoritário:
- Impenitência como Chave: A punição é eterna porque a vontade do rebelde se fixou no mal. Se a rebeldia é eterna, a separação de Deus (a pena) também o é.
- Oração pelos Mortos: A Ortodoxia acredita que as orações da Igreja podem aliviar o sofrimento das almas no Hades e até mudar sua condição antes do Julgamento Final. Isso sugere que o estado atual (Hades) não é o final absoluto (Gehenna).
- Esperança, não Dogma: Santos como Isaque, o Sírio, expressam a esperança de que o amor de Deus possa eventualmente vencer até a obstinação dos demônios. No entanto, na Ortodoxia, isso é tratado como uma opinião teológica (theologoumenon) ou uma esperança piedosa, e nunca como um dogma que anule o livre-arbítrio humano de rejeitar a Deus para sempre. O dogma afirma que o inferno e a separação de Deus são eternos para aqueles que permanecem em rebeldia. A ideia de que "não sairão de lá até pagarem o último centavo" é frequentemente aplicada ao estado intermediário (Hades), enquanto o Julgamento Final é apresentado nas Escrituras e nos Concílios como definitivo.
Como essa visão ortodoxa de "Deus como fogo" se diferencia da ideia de Purgatório da Igreja Católica Romana?
A principal diferença reside na natureza da experiência pós-morte: enquanto o Purgatório católico é visto como um "lugar" ou estado de purificação judicial, a visão Ortodoxa descreve Deus como um "fogo consumidor" que é experimentado de formas diferentes dependendo do estado da alma.
Aqui estão as distinções fundamentais:
- Natureza do Fogo:
- Visão Ortodoxa: O "fogo" não é uma criação de Deus para punir, mas é a própria presença e amor de Deus. Para quem o ama, essa presença é luz e calor (Paraíso); para quem o rejeita, o mesmo amor é experimentado como um fogo que queima e causa tormento (Inferno).
- Purgatório Católico: Tradicionalmente, o Purgatório é um processo de purificação final para as almas que morrem em amizade com Deus, mas ainda precisam pagar a "pena temporal" de seus pecados antes de entrar no céu.
- Purificação vs. Punição:
- Visão Ortodoxa: Rejeita a ideia de uma "dívida" jurídica a ser paga. A purificação é vista como um amadurecimento ou cura da alma que ocorre ao se aproximar de Deus, e não como um requisito prévio de castigo em um local separado.
- Purgatório Católico: Foca na necessidade de satisfação da justiça divina, onde a alma sofre temporariamente para ser limpa de toda impureza.
- Estado Intermediário:
- Visão Ortodoxa: Acredita-se em um estado de "espera" ou ante-gosto do julgamento final, onde as orações dos vivos podem ajudar os mortos, mas sem a definição dogmática de um lugar específico com duração temporal medida.
- Purgatório Católico: É uma doutrina definida (dogma) que assegura a salvação definitiva, mas exige essa etapa intermediária de purificação ativa.
Para os ortodoxos, Céu e Inferno são a mesma "moeda" (a presença de Deus), dependendo apenas da receptividade do coração humano.
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