Igreja Ortodoxa: Bizâncio
Do livro Igreja Ortodoxa de Bernardo Sartorius
https://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/igreja_ortodoxa_1.htm
Bizâncio
A Igreja oriental, chamada, depois do cisma, "ortodoxa" (isto é, a que oferece ao Senhor "o verdadeiro louvor"), foi profundamente marcada, nas suas estruturas hierárquicas, canônicas e litúrgicas, pela época em que era a Igreja oficial do Império bizantino. Como diz o padre Schmemann, "a Igreja ortodoxa contemporânea é - sob o ponto de vista do historiador a Igreja de Bizâncio que sobreviveu ao Império bizantino durante cinco séculos" (Alexander Schmemann: The Historical of Eastern Orthodoxy, Londres, 1963, p. 199) É a época - que vai do século V até à tomada de Constantinopla pelos Turcos, em 1453 - durante a qual se cristalizaram os aspectos principais da Igreja oriental, alguns dos quais ainda mesmo antes de acontecer o cisma com a Igreja do Ocidente; é então que, na continuidade em relação à Igreja primitiva, se constituiu a Igreja ortodoxa propriamente dita. Depois da ocupação das dioceses dos três antigos patriarcados de Jerusalém, de Antioquia e de Alexandria pelos Árabes muçulmanos, no século VII, a Igreja de Constantinopla, ou Bizâncio, torna-se o centro da vida da Igreja e da teologia oriental. A sua história será marcada, por um lado, por uma nova era de controvérsias teológicas, e por outro, pela estruturação definitiva da Igreja como Igreja do Império, isto é, como centro de um Estado cristão em que o Estado e a Igreja vivem em "sintonia," em situação de "coabitação" e de colaboração estreitas. A elaboração doutrinal prossegue neste período, particularmente sob a forma de uma tomada de consciência cada vez mais impulsionada das diversas incidências sobre a vida da Igreja e do mundo, da real presença do próprio coração do homem e do mundo material. A controvérsia a respeito dos "ícones," a que o sétimo concílio pôs termo, indicou, pela sua própria violência (o imperador Constantino Coprónimo foi até ao ponto de perseguir os "iconólatras" e de fazer destruir milhares de quadros sagrados), o que é que estava verdadeiramente em jogo: Deus, que encarnou em Cristo, pode ou não manifestar-se através de um suporte criado pela mão do homem, nesta conjuntura, através de um ícone" É interessante verificar que seriam sobretudo os meios laicos, ainda fortemente influenciados pelo espiritualismo grego, a opor-se à veneração dos ícones, uma vez que a sua defesa estava assegurada pelos meios monásticos que tinham sabido conservar e desenvolver as intuições dos padres da época clássica. Uma tensão análoga entre uma teologia "mundana," isto é, determinada em grande parte pelas categorias de pensamento do helenismo neo platônico, e a teologia "patrística," monástica e mais evangélica devia aparecer alguns séculos mais tarde (séculos XII-XIV) no decorrer das controvérsias sobre as manifestações concretas do Espírito Santo, presença de Deus no homem e no universo. Nos meios humanistas que gravitavam em volta da corte imperial e que punham em dúvida a realidade da presença de Deus na vida humana e os sacramentos da Igreja, Gregório Palamas (1296-1359) responde que o prêmio da fé cristã reside precisamente no fato inaudito e misterioso de Deus ser uma realidade da qual o homem é chamado a "participar" efetivamente.
Duas grandes correntes espirituais - culturais parecem pois ter marcado a história do Império bizantino, determinando cada uma, à sua maneira, a vida e as estruturas da Igreja. No seu conjunto, muitas vezes indissociáveis, elas haviam de formar a cultura bizantina. Uma tinha por centro a corte imperial que era, por certo, profundamente "cristã" na medida em que o imperador devia "viver a Ortodoxia e a piedade de maneira perfeita, conhecer os dogmas da Santa Trindade e as definições que respeitam à salvação pela Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo..." (Epanogè, introdução à legislação do Império, publicada pelo imperador Basílio 1, o Macedónio, cerca do século IX. Citado por Alexander SCHMEMANN, op. cit. p. 215). O papel espiritual do imperador colocava este último numa situação paralela em relação ao patriarca, cabeça efetiva da Igreja: se um era responsável pela administração temporal dos cristãos, a outra tinha o encargo do seu bem espiritual. Ora, visto que todo o súbdito do Império era ortodoxo, e dentro em breve, perigosa reciprocidade que surgirá quando da cristianização dos eslavos, visto que todo o ortodoxo era súbdito do imperador, escusado será dizer que, praticamente, a Igreja e o Império serão governados por um só organismo - aliás, muitas vezes, em estado de tensão interna - a saber pelo binômio imperador-patriarca. Nestas condições, não surpreenderá que a cultura da corte imperial se esbata em muitos pontos sobre a própria vida da Igreja. Em parte, será ao fausto das cerimônias da corte que a liturgia ortodoxa deverá a sua riqueza propriamente dita real, até alguns textos primitivamente ditos pelo próprio imperador e depois confiados aos padres. Do mesmo modo, será desta identificação dos fiéis da Igreja com os cidadãos do Império que decorrerá a tradição ancorada muito solidamente na Ortodoxia até aos nossos dias, segundo a qual os súbditos de um soberano ortodoxo deverão pertencer necessariamente à sua Igreja e reciprocamente. Enfim, a corte e as universidades imperiais deram origem, por volta do século X, a urna teologia "oficial," fortemente impregnada de helenismo e no seio da qual, decorrendo sem dúvida de um desejo de estabilidade política, a "tradição" da Igreja ocupará, paradoxalmente, um lugar central. Inspirando-se muitas vezes mais no pensamento grego do que no cristão, os teólogos "de corte" - tais como o patriarca Fócio. por exemplo - esforçar-se-ão por demonstrar que os seus pontos de vista estão conformes em tudo com os dos "santos Padres da Igreja e com os sete concílios ecumênicos." Se a teologia ortodoxa não tivesse então beneficiado senão unicamente dos trabalhos dos universitários bizantinos, ela teria perdido o seu dinamismo, limitando-se a repetir literalmente antigas verdades dogmáticas, justapostas sem autêntico ensaio de confronto a um humanismo de inspiração pagã.
A outra corrente de pensamento e de vida que marcou profundamente a Igreja bizantina e as Igrejas ortodoxas que dela vierem a derivar tinha outra vez a sua origem nos conventos - depois de um período de decadência passageira - extremamente numerosos, estabelecidos um pouco por toda a parte, mesmo nas cidades do Império. Aí se mantinha uma espiritualidade do fim do mundo, da exigência absoluta de Deus, mas também de liberdade real, espiritualidade essa que, sem cessar, lançava no mundo bizantino, impulsos criadores de cultura. Foi nos mosteiros, um grande número dos quais estavam estabelecidos já nesta época no Monte Atos (desde o século X) que nasceu, progressivamente e em diálogo com o pensamento cristão profano, a espiritualidade ortodoxa eslava e grega contemporânea: uma mistura de vida interior intensa - concretizada na "oração incessante" - e de participação fervorosa no alegre drama da liturgia dominical, uma e outra devendo iluminar do interior toda a vida do crente. Foi nos mosteiros que foram elaborados, muitas vezes com base nos escritos dos Padres da Igreja, o calendário e o ritual cheio de sutilezas das inúmeras celebrações litúrgicas, das festas, vigílias, matinas, completas, liturgias dominicais e orações públicas reunidas no Typicon e no Triodon (antologias litúrgicas) ainda em uso nos dias de hoje. Era nos mosteiros que florescia a arte da pintura dos ícones que, por esta razão, será sempre, na Ortodoxia, uma arte sagrada à qual não se podem dedicar senão aqueles que para isso se preparam "com jejuns e orações." Enfim, serão os mosteiros que assegurarão a sobrevivência do cristianismo depois da total ocupação do Império pelos Turcos, uma vez que a sua teologia, era mais do que a teologia "oficial" imperial, permitia distinguir a Igreja do Império, o Evangelho da cultura bizantina. Centrada no essencial, - a presença de Deus revelada em Cristo, independente das condições sociais e políticas - a espiritualidade dos monges - vivida aliás por numerosos leigos, como o teólogo Nicolau Cabasilas - garantirá o carácter universal do Evangelho no tempo ameaçado pelas limitações nacionalistas imperiais.
A missão bizantina
A vitalidade do cristianismo bizantino - por muito política que ela fosse em parte - iria necessariamente irradiar para lá das fronteiras do Império. Cirilo e Metódio, enviados pelo imperador, entraram na Morávia, durante o século IX, uma região até então submetida à influência da Igreja ocidental de Roma. Dão aos eslavos uma língua escrita, o eslavo, e traduzem a liturgia bizantina para essa língua. Muito rapidamente os Búlgaros aceitam o Baptismo, rito identificado nessa altura aos olhos de muitos com a aceitação da cidadania bizantina, mas não tardarão a procurar a independência política e eclesiástica. A conversão dos Sérvios aconteceu no século X; depois foi a dos Romenos. Progressivamente, a influência bizantina estendia-se até à Rússia do principado de Kiev, cujos habitantes foram baptizados em bloco no fim do século X, por instigação do príncipe Vladimir. Diz-se que o príncipe mandou enviar os seus representantes às regiões onde se praticavam as grandes religiões da época - islamismo, cristianismo ocidental e oriental - e que, deslumbrados pela beleza da liturgia bizantina, estes se voltaram para ela, com o sentimento "de não saberem se estiveram no céu ou na terra, pois sobre a terra não se encontra beleza semelhante" (Citado por Nicolas ARSENIEV: La Piété russe. Neuchãtet, 1963, p. 83). Diz-se que este relacionamento teve por efeito a conversão do príncipe e, a partir daí, a dos súbditos. Esta lenda indica bem a natureza das "missões" bizantinas: o cristianismo não era só transmitido por preocupação de "evangelização" no sentido contemporâneo do termo, mas também por razões políticas e estéticas. A influência política de Bizâncio, aliada ao carácter "místico" muito cativante dos seus cultos: eis a causa humana da expansão missionária desta época. O verdadeiro milagre será o enraizamento durável, na alma eslava, do Evangelho assim anunciado e aceite.
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