Igreja Ortodoxa - Bernardo Sartorius

 

Igreja Ortodoxa

Bernardo Sartorius

I

Prefácio

Esta obra integra-se numa série de publicações consagradas às religiões do homem de hoje. Por outro lado, ela dirige-se aos não teólogos, mesmo aos não crentes, a todos aqueles cuja busca pessoal de um sentido para a vida incitou a adquirir esta série de publicações. Este duplo estado de coisas determina, por si só já a óptica do presente livro: ele quer ser uma introdução geral ao pensamento do cristianismo oriental, na medida em que este é portador de uma mensagem susceptível de interpelar muito particularmente o homem de hoje. Não nos caberá, pois, dar uma descrição "objetiva" da fé ortodoxa (poderá falar-se de "descrição objetiva" no domínio da fé?), mas antes, e deliberadamente, pôr o acento sobre as dimensões da fé cristã ortodoxa que levantam questões estimulantes ao homem ocidental de hoje, por um lado, e que respondem às suas aspirações profundas, por outro. Inserido numa série de obras sobre a "religião do homem de hoje," este livro desejaria pois, na medida do possível, contribuir para responder a esta questão escaldante: Que significa a "religião" para os nossos contemporâneos?

O seu autor é protestante, o que, pela força das coisas, contribui para orientar esta publicação numa perspectiva ecumênica. Com efeito, contrariamente a um membro da Igreja ortodoxa, o autor não poderá apresentar a compreensão oriental do Evangelho como á única maneira de responder fielmente a Cristo, mas esforçar-se-á por mostrar, e é assim que ele entende definir a palavra "ecumenismo," que a Ortodoxia constitui um enriquecimento decisivo e indispensável da fé cristã ocidental - protestante e católica romana. Assim, tentaremos, muito modestamente aliás, integrar-nos nesta busca mundial da unidade cristã que longe de visar um nivelamento e uma uniformização das diversas expressões da vida e da fé cristã, busca, ao contrário, promover o seu enriquecimento, a sua fecundação recíproca. Escusado será dizer que um tal tratamento se fundamenta sobre a convicção - muito protestante - de que, pela força das coisas e pela inautenticidade dos homens, o seu "pecado," a presença divina deu origem a expressões de fé e de vida divergentes, mas que, no fundo, para além da sua contradição lógica, são complementares.

Se tal é a óptica deste modesto trabalho - busca, num contexto ecumênico, do que a Ortodoxia poderá dizer ao homem contemporâneo, - é preciso sublinhar que ele foi precedido por numerosos outros escritos de origem ortodoxa que dão ao leitor ocidental uma informação mais circunstanciada e mais profunda, porque vivida do interior (Ver a bibliografia no fim deste volume). A sua leitura é muito vivamente recomendada a quem desejar aprofundar a sua busca da fé cristã oriental. Se o nosso livro lhe provocar esse gosto, terá certamente justificada a sua existência a par dos seus predecessores, melhor documentados e entroncados diretamente nos Padres da Igreja e nos Staretz russos... De qualquer forma, e isto legitima os nossos propósitos, como diz o teólogo ortodoxo Meyendorff "já não é Bizâncio como tal que interessa aos cristãos do Ocidente, mas a verdadeira fé cristã" (Jean Meyendorff: Orthodoxie et Gutholicité. Pari. 1963. p. 96).

Bernard Sartorius

Natal de 1967

 

 



Capítulo primeiro

Esboço histórico

A Igreja primitiva

Quando a Igreja se constitui progressivamente, sob o impulso da doutrina de Cristo e da certeza da sua presença, ela era una, se bem que múltipla, una ainda que diversificada, homogênea apesar das particularidades locais evidentes. Inserida no quadro do Império romano, alastrou muito cedo tanto para leste como para oeste da bacia do Mediterrâneo, ora sofrendo influências judaizantes, ora tomando à sua conta e transformando-o o património helénico ambiente. Então, no decorrer dos três primeiros séculos, não se tratava tanto de falar da "Igreja do Oriente" ou da "Igreja do Ocidente;" era a única e mesma comunidade, englobando um conjunto de comunidades locais unidas por uma mesma fé e um mesmo dinamismo missionário.

Sabe-se que a primeira comunidade cristã foi fundada em Jerusalém, sob o impulso dos discípulos do próprio Cristo, no quadro do judaísmo da época, mas já em ruptura radical em relação a ele. Um acontecimento inteiramente novo, a certeza da presença total de Deus nas palavras e na pessoa de um homem chamado Jesus de Nazaré, fez despedaçar-se, a partir entretanto desse mesmo meio, o legalismo rígido das comunidades judaicas dessa época. Todavia, ao mesmo tempo, esta novidade radical inscreve-se na continuidade profunda dos escritos bíblicos de que os livros proféticos - Isaías, Ezequiel e outros - davam testemunho e conhecimento. Aparece já a dialética entre o antigo e o novo, entre o acontecido e o inédito, exprimindo-se este através daquele e distinguindo-se dele, dialética que marcará toda a história do pensamento cristão.

Tudo era acontecimento, passagem do antigo ao novo, vida nova. O Batismo marcava a entrada do crente na nova realidade. Por um lado, sinal de arrependimento, isto é, de "conversão," no sentido etimológico do termo, este rito significava que o candidato estava disposto a renunciar ao antigo estilo de vida, marcado pelo egocentrismo, e a abrir-se para uma nova dimensão do amor manifestado por Cristo. Enquanto tal, este rito incorporava o candidato na comunidade dos batizados, ela própria manifestação concreta do amor do próximo vivida fraternalmente. Ao mesmo tempo, a imersão total na água indicava que só uma verdadeira "morte" em si mesmo, seguida de uma vida nova inteiramente recebida e não "ganha," era susceptível de conferir ao homem a qualidade de "cristão." Enquanto tal, o Batismo significava, pois, desde as origens, que só a novidade radical de Deus, concedida sem que o homem a possa merecer, era capaz de transformar progressivamente o homem antigo numa "criatura nova," vivendo no e pelo amor.

A refeição comum, a "Ceia," o partir do pão e a partilha do vinho, sinal instituído pelo próprio Jesus, devia ser o símbolo eficaz da vida nova de comunhão com Deus e de uns com os outros. Este ato comunitário tinha lugar ao "domingo," o "dia do Senhor," que se situava no dia seguinte ao sábado judaico, para indicar bem que, daqui para o futuro, a vida nova ultrapassava o quadro das leis judaicas, que devia inscrever-se na própria vida, a vida familiar, social e profissional. Sendo o pão e o vinho elementos tomados da vida quotidiana, o seu consumo comunitário, significava que o acontecimento Cristo - a presença de Deus no homem não era um assunto "religioso," no sentido judaico do termo, isto é um aspecto da vida distinto dos outros, mas que se situava bem no coração da própria vida.

A comunidade primitiva era, pois, uma comunidade fraterna, na verdadeira acepção da palavra, e todos os seus responsáveis eram "ministros," isto é, "servidores" dos outros. Eles eram servidores na medida em que, por um lado - era a função dos Doze, depois dos "bispos" - asseguravam à comunidade a sua coesão interna e a sua fidelidade à vida nova em Cristo, cuja possibilidade lhe era sempre novamente oferecida nos "sacramentos," isto é, os "sinais" do Batismo e da Ceia, assim como na recordação das palavras do Mestre. Eles eram também servidores, na medida em que, pelo seu exemplo e pela sua natural autoridade, inspiravam a vida interna da comunidade e a sua expansão missionária. Enfim, eram servidores os diáconos encarregados das necessidades materiais da comunidade e, mais particularmente, da assistência aos seus membros mais desfavorecidos. Comunidade de homens que descobriram a possibilidade, não só de falar, mas ainda de viver na fraternidade e no respeito mútuo, a Igreja primitiva dotou-se de ministérios que, só por si mesmos, são a expressão da vida nova inaugurada por Jesus de Nazaré.

Homens que fizeram uma tal descoberta iam necessariamente difundi-la no seu meio ambiente imediato, iam necessariamente transpor as barreiras tradicionais entre as raças, as classes e os sistemas religiosos e filosóficos. A certeza de que esta novidade de vida era destinada a todos os homens - eles acreditavam então que, num futuro muito próximo. o próprio Senhor a manifestaria a todo o mundo - devia dar aos primeiros cristãos" uma visão universalista. Saulo de Tarso, Paulo após a sua conversão, foi o primeiro a apanhar-lhe todas as profundas implicações e, ao mesmo tempo e em conseqüência, a dar aos seus irmãos na fé a convicção de que a sua mensagem de vida era mais completa, mais radical, mais universal do que a do judaísmo ligado, apesar das exceções (os "prosélitos"), a uma propriedade da raça judaica. A expansão missionária da Igreja devia, pois, marcar, ao mesmo tempo, a sua ruptura definitiva com o judaísmo. Das viagens do Apóstolo em torno da bacia mediterrânica iriam nascer numerosas comunidades cristãs cujos membros eram de origem não judaica. A extensão da Igreja não deixou, por isso de a obrigar a exprimir e a viver a sua descoberta em função, e no contexto, de um mundo estranho a Jesus de Nazaré, do mundo greco-romano, cujas categorias de pensamento, marcadas pelo helenismo, eram radicalmente diferentes das do seu fundador, ou seja, semíticas. Como viver a descoberta da presença de Deus no próximo, enquanto Grego e Romano? Tal devia ser a preocupação maior de Paulo e dos teólogos que lhe sucederam.


A grande tentação dos novos convertidos de origem pagã era quererem compreender o Evangelho de Cristo como um simples aprofundamento das numerosas religiões orientais já existentes, e portanto não tomarem totalmente a sério a novidade radical da nova religião, a qual, implicitamente, pretendia significar o fim de qualquer religião.

O gnosticismo, espécie de sincretismo que combinava elementos de religiões tradicionais com certos aspectos do judaísmo, iria pois ser combatido no interior da mesma igreja. Para lhe limitar a influência, a Igreja primitiva fixou o número de escritos que passavam a constituir o Novo Testamento, devendo qualquer outro documento ser julgado à luz deste último. Tal devia ser a argumentação dos teólogos como Ireneu, por exemplo, contra os "gnósticos," cuja doutrina, diz ele, é contrária à doutrina dos Apóstolos consignada nas Escrituras. Da mesma forma que os primeiros discípulos se tinham distanciado radicalmente do judaísmo, reformulando os modos de pensar, também os seus sucessores marcavam a separação radical do Evangelho com o helenismo ambiente, utilizando para o efeito as categorias de pensamento do adversário que eles combatiam. A busca da sua própria identidade em relação ao ambiente contemporâneo será, em todos os tempos, a tarefa da teologia.

É na teologia de Orígenes (que faleceu em 215) que o esforço de tradução da mensagem cristã com a ajuda das categorias helênicas, aparece muito nitidamente, do mesmo modo que os perigos inerentes a esta operação. Será ele que exprimirá de maneira sistemática o pensamento cristão em termos de "essência" de energia, de substância de "idéia," outras tantas noções colhidas da filosofia grega que faltavam por assim dizer, totalmente, ao pensamento cristão hebraico. O acontecimento puro, que parece ter sido o objeto da pregação da comunidade primitiva e que interpelava o homem a decidir-se pela vida nova, ia doravante ser analisado quanto à sua "natureza" e quanto à "idéia" que exprime. Insensivelmente, e sem que se deva ver nisso necessariamente uma traição - pois era preciso "traduzir" bem o Evangelho - começa-se a refletir sobre a fé de maneira objetiva, em lugar de se contentar em vivê-la, espontaneamente e apaixonadamente. A poesia cultural, das quais as primeiras confissões de fé, tornar-se-á igualmente afirmação dogmática normativa: a teologia, existencial, subjetiva mesmo no sentido de "vivida," pretenderá descrever cada vez mais um conjunto de realidades objetavas, "essenciais." Entretanto, pertencerá à parte oriental da Igreja, conforme se verá, nunca perder de vista, no próprio quadro dos seus desenvolvimentos dogmáticos, o caráter eminentemente pessoal, existencial, da realidade da nova vida anunciada e vivida, pela primeira vez, em todas as suas exigências por Cristo.


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do livro: Igreja Ortodoxa de Bernardo Sartorius

https://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/igreja_ortodoxa_1.htm

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