A Dormição da Theotokos
São João Damasceno (c. 676-749)
Fonte: Gomes, Folch. Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas, 1979. Data da Publicação: 21 de fevereiro de 2025
SÃO JOÃO DAMASCENO: «HOMILIAS»
Introdução
Quem ama ardentemente algo costuma trazê-lo nos lábios e no pensamento dia e noite. Não me censurem, pois, por oferecer este terceiro panegírico à Mãe de meu Deus, em honra de sua partida. Não é um favor a ela, mas a mim e a vós, divina e santa assembleia aqui presente, que sirvo este manjar salutar. Nesta noite sagrada, em meio à penúria que nos aflige, improviso esta refeição espiritual. Não é suntuosa nem digna de sua inspiração, mas que ao menos sacie nossa fome. Maria não precisa de elogios; somos nós que buscamos sua glória. “Vivo eu”, diz o Senhor, “e glorificarei os que me glorificam” (cf. 1 Sm 2, 30). O vinho alegra, o pão nutre (Sl 104, 15), mas que há de mais doce que a Mãe de meu Deus? Ela cativa meu espírito, reina em minhas palavras e sua imagem me acompanha incessantemente. Mãe do Verbo, concede-me a fala! Filha de mãe estéril, torna fecundas as almas áridas! Hoje celebramos sua santa e divina Dormição.
Convite à Ascensão Mística
Acorramos à montanha mística! Deixemos as imagens terrenas, penetremos a treva divina e incompreensível, ingressemos na luz de Deus e exaltemos seu poder infinito. Aquele que, em sua transcendência imaterial, desceu ao seio virginal para se encarnar, sem abandonar o Pai; que pela Paixão enfrentou a morte, conquistando a imortalidade e retornando ao Pai — como não atrairia ao Pai sua Mãe segundo a carne? Como não elevaria ao céu aquela que foi um verdadeiro céu na terra?
A Escada Viva ao Céu
Hoje, a escada espiritual pela qual o Altíssimo desceu e “conversou entre os homens” (Br 3, 38) sobe, pelos degraus da morte, da terra ao céu. A mesa terrestre que, sem núpcias, trouxe o Pão da Vida e a Brasa da divindade foi elevada aos céus. Para a Porta do Oriente, a Porta de Deus, as portas celestes se abriram. Da Jerusalém terrestre, a Cidade Viva de Deus ascendeu à Jerusalém celeste (Hb 12, 22). Aquela que gerou o Primogênito de toda criatura (Cl 1, 15) e Unigênito do Pai habitará na Igreja das primícias. A arca viva do Senhor foi conduzida ao repouso de seu Filho (Sl 132, 8). As portas do paraíso se abriram para acolher a terra portadora de Deus, onde brotou a Árvore da Vida Eterna, redentora da desobediência de Eva e da morte de Adão. Cristo, causa da vida universal, recebe a gruta oculta, a montanha intocada de onde se destacou a Pedra que enche a terra (Dn 2, 34-35).
O Túmulo Glorioso
Aquela que foi leito nupcial da Encarnação repousou em um túmulo glorioso, como em tálamo, para ascender às núpcias celestes, onde reina com seu Filho e Deus. Seu túmulo, na terra, é um lugar de núpcias — não ornado de ouro ou gemas, mas refulgente pela luz do Espírito Santo. Não une esposos terrenos, mas concede às almas, pelos laços do Espírito, uma vida santa e uma condição divina mais doce que qualquer outra.
Mais belo que o Éden, esse túmulo não viu a sedução do inimigo, a fraqueza de Eva ou a expulsão (Gn 3). Enquanto o jardim trouxe a morte — “tu és terra e à terra tornarás” (Gn 3, 19) —, o túmulo de Maria elevou um corpo mortal ao céu. Mais precioso que o tabernáculo, encerrou o candelabro vivo da luz divina, a mesa do Pão Celeste, o fogo imaterial da divindade. Mais feliz que a arca de Moisés, acolheu a verdade, não sombras: a urna do maná celeste, a mesa viva do Verbo encarnado pelo Espírito, o altar dos perfumes que aromatizou a criação.
Cântico de Vitória
Fujam os demônios! Gemam os nestorianos, engolidos pelo abismo da blasfêmia, como os egípcios no mar! Nós, salvos, cantemos à Mãe de Deus o hino do Êxodo (Ex 15). Que a Igreja, como Miriam, tome o tamborim; que as virgens do Israel espiritual dancem com coros! Reis, juízes, jovens, virgens e anciãos exaltem a Mãe de Deus! Que povos e línguas componham um cântico novo, com flautas e trombetas espirituais, celebrando o dia da salvação! “Alegrai-vos, ó céus” (Is 44, 23), nuvens, chovei alegria! Saltai, apóstolos, montanhas sublimes, e vós, povo santo, cordeiros de Deus, colinas que aspiram às alturas!
A Segunda Existência de Maria
Morreu a fonte da vida, a Mãe de meu Senhor? Sim, era preciso que o corpo terreno retornasse à terra, para dali subir ao céu, rejeitando a mortalidade como ouro no crisol e recebendo a vida incorruptível. Hoje, Maria inicia uma segunda existência, dada por aquele que a trouxe à primeira, assim como ela lhe deu a vida corpórea, sendo Ele eterno no Pai. Alegra-te, Sião, montanha santa, onde habitou a Montanha Viva, a nova Betel ungida pela divindade! Dela, o Filho ascendeu aos céus. Que os apóstolos, como nuvens e águias, voem dos confins da terra para cultuar a Mãe de Deus¹! Quem é esta que sobe, bela como o sol (Ct 6, 10)? Que as línguas dos apóstolos, cítaras do Espírito, cantem; que Hieroteu², vaso de eleição, entoe hinos em êxtase! Que nações e anjos glorifiquem seu corpo mortal!
A Ascensão da Rainha
Filhas de Jerusalém, levai a Rainha ao Esposo, à direita do Senhor! Desce, ó Soberano, acolhe a alma de tua Mãe nas mãos que entregaste ao Pai na cruz (Lc 23, 46)! Chama-a: “Vem, ó formosa, resplandecente na virgindade, partilhaste me teus bens, vem gozar os meus!” Aproxima-te, ó Mãe, participa do poder régio daquele que contigo viveu na pobreza! Ascende, ó Soberana! Não mais “sobe e morre” (Dt 32, 49-50), mas morre e eleva-te pela morte! Entrega tua alma a teu Filho e à terra o que é dela, pois até isso será elevado contigo.
Erguei os olhos, Povo de Deus! Eis em Sião a arca do Senhor, assistida pelos apóstolos em seu último culto ao corpo que foi princípio de vida. Anjos a cercam invisivelmente, e o Senhor, onipresente, a acolhe — Ele que tudo contém, mas não está contido.
Súplica e Louvor Final
Eis a Virgem, filha de Adão e Mãe de Deus: por Adão, entrega o corpo à terra; por seu Filho, eleva a alma aos céus. Santificada seja Jerusalém por essa bênção! Que os anjos preparem seu túmulo, que o Espírito o ilumine, que aromas embalsamem o corpo imaculado! Que a criação celebre sua ascensão: jovens em alegria, oradores em panegíricos, sábios em reflexões, anciãos em contemplação. Vinde, cerquemos seu túmulo para haurir graça! Abracemos em espírito o corpo virginal, morramos às paixões e conheçamos o mistério: como foi elevada ao céu, junto de seu Filho, acima dos anjos. Este terceiro discurso, ó Mãe de Deus, ofereço à Trindade, cuja cooperadora foste pelo Pai e pelo Espírito, ao receberes o Verbo. Aceita minha boa vontade, maior que minha capacidade, e concede-me salvação, libertação das paixões, alívio das doenças, vida de paz e luz do Espírito. Inflama nosso amor por teu Filho, guia nos à bem-aventurança, para que, vendo-te refulgir com Ele, cantemos hinos eternos a Cristo, nosso Deus, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos. Amém.
Notas
• Refere-se à tradição de que os apóstolos se reuniram em Jerusalém para a Dormição de Maria.
• Hieroteu, identificado como mestre de Dionísio, o Areopagita, em *Os Nomes Divinos*, é mencionado por São João Damasceno como figura mística presente na Dormição.
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