A ORAÇÃO DO CORAÇÃO - parte 5
5. Uma unificação excêntrica
Não é justo separar as duas etapas seguintes - das que a metânica constitui a base indispensável - a da unificação da consciência e do coração e a da transfiguração na luz divina. A unificação, com efeito, não é extática por si mesma. É porque o homem sai de si mesmo, de sua natureza, para unir-se a Deus, que ele pode pacificar e reunificar esta natureza. O Aprofundamento na existência, o despertar progressivo do "coração consciente" de onde se transfiguram (...) a inteligência e a força vital do homem, a experiência simultânea da consubstancialidade de todos os homens, "membros uns dos outros" em Cristo, tudo contribui, no dinamismo que vai da fé ao amor por meio da esperança, para realizar pouco a pouco a unificação excêntrica.
Ex-cêntrica, porque o homem se recolhe em seu coração, que em si mesmo não é mais que o lugar de transparência a uma luz incriada, isto é, cuja fonte está sempre mais além.
Ex-cêntrica, pois o homem assume a natureza humana reunificada em Cristo na medida em que, por auto-transcendência pessoal, adere com toda sua fé à pessoa de Cristo. Esta transcendência do homem no desconhecimento responde misteriosamente à trans-consciência de Deus vivo, na "kenosis". As energias divinas unificadoras são o conteúdo de um re-encontro.
A "Oração de Jesus" pode se revestir de formas "técnicas", psicossomáticas, para favorecer esta unificação do espírito e do coração. Indicações bastante precisas se encontram nos textos dos séculos XIII e XIV, quando se produziu, no mundo bizantino, um forte renascimento do hesycasmo. O recurso à palavra escrita prova que os mestres haviam desaparecido e também que o hesycasmo não é um esoterismo com suas linhas ininterruptas de mestres a discípulos, como no sufismo, senão a realização consciente do mistério cristão, sempre susceptível de renascer da vida sacramental e da penetração espiritual das escrituras. Nil Sorsky, no século XVI, o starets Silvano no século XX, re-enviam o aprendiz, se não encontra o mestre, à meditação da Bíblia e dos Padres a uma profunda vida sacramental, ao respeito aos "mandamentos de Cristo", em fim, aos conselhos de todo confessor de boa vontade, ainda que não entenda nada do "método": se se remete a ele na confiança e na humildade, Deus mesmo nos guiará por sua intermediação.
Ao final do século XIII e durante o XIV, num período muito turbulento, muitas coisas foram confiadas à palavra escrita: trata-se dos textos de Nicéforo, o Solitário, (que constituem uma pequena Filocalia dentro da grande), do autor anônimo do "Método" de São Gregório Palamás, de São Gregório, o Sinaíta, de Calisto e Ignácio Xanthopoulos. O conjunto de extratos concernentes às técnicas da oração foi estabelecido por João Gouillard, que o completou utilizando certas indicações de São Nicodemos, o Hagiorita.
À saída e, sobretudo, à luz do sol, dizem esses textos, é necessário, para orar, fechar-se "em uma cela tranqüila e escura, em um lugar afastado, um rincão". Enquanto que, para os principiantes, a oração de Jesus se faz de pé, com ou sem prostrações, recomenda-se sentar-se em assento baixo ou inclinar-se apertando o peito ,seja simplesmente apoiando o maxilar sobre ele ou curvando-se extremamente, num movimento "circular" do corpo, inclinando a cabeça até os joelhos, não sem uma "dor no peito, das costas e da nuca." Se se contenta com inclinar-se apoiando o maxilar ou queixo sobre o peito, é o olhar o que fechará o círculo, fixando-se sobre o mesmo peito ou "sobre o centro do ventre, isto é, sobre o umbigo.
Tais posturas têm um sentido no que se expressa a realidade simbólica, sacramental do corpo. Manifestam e, por conseguinte ,favorecem a concentração de todo o composto humano sobre o coração, num movimento que, porque é incômodo (ao contrário da facilidade soberana buscada pelo Yoga), não é de domínio mas de oferenda. "Assim", - diz Nicodemo, o Hagiorita, - "o homem oferece a Deus toda a natureza sensível e intelectual, da que é o vínculo e a síntese".
Os hesycastas se referem, a este respeito, ao "movimento circular da alma", do qual fala Dionisio, o Aeropagita nos Nomes Divinos: "O movimento circular da alma, é sua entrada nela mesma pelo desligamento dos objetos exteriores e o "envolvimento" unificador e suas potências. Igualmente, a fixação do olhar sobre o umbigo, isto é, sobre o centro vital do homem (todo um estudo se imporia aqui para saber se se pode adiantar uma comparação com o Hara japonês), não é uma simples comodidade de concentração, mas significa que toda a força vital do homem, "metamorfoseando-se no coração consciente", deve também chegar a ser oferenda. "Deus pode assim fazer sua", diz São Gregório Palamás, "a parte concupiscível da alma. Ele pode devolver o desejo a sua origem", isto é, o Eros por Deus, do que falam tão profundamente São João Clímaco e o Apocalipse, que lança seu chamado ao "Homem de desejo".
Deste modo, também o corpo se "une" a Deus "pela força mesma desse desejo". Aqueles que se ligam aos prazeres sensíveis da corrupção esgotam na carne toda a potência de desejo de sua alma e chegam a ser integralmente carne. O Espírito não poderia habitar neles. Pelo contrário, naqueles que elevam seu espírito até Deus e estabelecem sua alma no amor de Deus, sua carne transformada compartilha o impulso do espírito e se une a Ele na comunhão divina. Chega a ser, ela também, o domínio e a habitação de Deus. Esta transfiguração do Eros no Ágape é uma constante nesta tradição: "Que o Eros físico seja para ti um modelo em teu desejo de Deus", escrevia São João Clímaco. E dizia inclusive: "Felizes aqueles que não têm uma paixão menos violenta por Deus que a do amante por sua bem-amada."i
Em tal postura, é necessário "recolher o espírito e "fazê-lo descer", "impulsioná-lo" para o coração, utilizando o movimento da inspiração. A curvatura do corpo permite "comprimir" a respiração. Se "retém o sopro", o maior tempo possível, pronunciando as palavras da oração. Logo, se expulsa o ar, "com os lábios fechados". Isto de pé. O espírito, atraído pela posição incômoda do corpo " se recolhe assim mais facilmente". O coração desconfortável pela retenção respiratória, é mais fácil de "encontrar". Na continuação "o vai-vém do sopro se faz mais e mais lento. A invocação não se pronuncia já por meio dos lábios, inclusive, quase em silêncio, se realiza de uma maneira interior. "Chega um dia em que o espírito, treinado, terá feito progressos e recebe o poder do Espírito para orar total e intensamente: então, já não terá necessidade de palavras".
Uma vez que o espírito "desceu" ao coração, não deve ter outra ocupação que o grito de "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim". A fórmula empregada será - sem que a mudança seja muito freqüente "pois as plantas muitas vezes transplantadas não prosperam" - tanto: "Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim", como "Filho de Deus, tem piedade de mim". Quando o espiritual "tenha progredido no amor por meio da experiência" e tenha obtido, por meio da graça, a evidência da misericórdia divina, abandonará o "tem piedade de mim" para concentrar-se nas palavras "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus", que dirigem o espírito imaterialmente para aquele que elas nomeiam. Os mais "avançados" e os "perfeitos" se contentarão com a invocação única do Nome de Jesus.
A oração deve ser dita "com todo seu amor" e com toda sua inteligência, aplicando-se ao sentido das palavras. Ela limpa o pó das imagens mentais, que embaça o "espelho", do coração. O coração, assim purificado, vê-se a si mesmo inteiramente luminoso "eleva-se no amor e no desejo de Deus", descobre-se pleno da "luz tabórica" que brilha no Cristo transfigurado, chega a ser aprazível "espelho de Deus" onde se imprime a "imagem" de Cristo e nela, a verdade dos seres e das coisas.
É necessário ter em conta sempre, o fato de que o ocidental de hoje difere muito do tipo de homem para quem foram escritos estes textos. O homem das antigas civilizações dispunha de um sólido ser vital. Estava arraigado no silêncio e na calma. Conhecia o cansaço profundo que, a sua maneira, purifica e renova. Estava próximo aos seres e às coisas. O homem de hoje, o da civilização urbana e industrial, vive muito mais na superfície de si mesmo. Está habitado por ruídos e imagens apressadas. Está nervosamente esgotado, porém conhece raramente a grande e boa fadiga do corpo. Está só na multidão, perdeu o contato com as coisas, com a verdadeira matéria. Farta-se com alimento e impressões. Para romper a carcaça do artificial e do mecânico, só lhe resta o erotismo. Porém este também se torna artificial e mecânico.
É por isso que se faz necessário transcrever aqui algumas linhas pertinentes de Paul Evdokimov: "Nas condições da vida moderna, sob o peso excessivo do trabalho e da busca desenfreada do lucro, a sensibilidade muda. A medicina protege a prolonga a vida, porém, ao mesmo tempo, diminui a resistência ao sofrimento e às privações. A "ascese" cristã, que não é mais que método à serviço da vida, buscará então adaptar-se às novas necessidades. A Thebaida heróica impunha jejuns extremos e auto-flagelação: o combate se desloca atualmente.
O homem não necessita de uma dor suplementar que produziria o risco quebrá-lo inutilmente. A mortificação consistirá na libertação de toda necessidade de "doping", velocidade, ruídos excitantes, álcool de todo o tipo. A ascese será, então, o repouso imposto, a disciplina de calma e de silêncio, periódica e regular, na que o homem re-encontra a faculdade de recolher-se para a oração e contemplação, inclusive no meio de todos os ruídos do mundo. O jejum será a renúncia ao supérfluo , o compartilhar com os pobres, um equilíbrio risonho.
Neste contexto, alguns dos espirituais ortodoxos mais experimentados, desaconselham atualmente "fazer descer" a oração ao coração de uma maneira voluntarista. Corre-se o risco, assim, de falsear o equilíbrio nervoso, e de perder irremediavelmente a possibilidade de "encontrar seu coração". É necessário, por conseguinte, contentar-se em utilizar o ritmo da respiração e orar, quando for possível, "com todo o coração", no sentido popular desta expressão. Um dia, talvez, Deus, por sua graça, fará descer a oração ao coração: porém, é necessário remeter-se inteiramente a Ele, não contrair, não querer. O homem do Ocidente, disse Heidegger, " caracteriza-se pela vontade-de-vontade". É necessário aprender primeiro a abandonar-se e, esse é realmente o sentido profundo da "oração de Jesus".
Nicolás Cabasillas, que escrevia para os leigos, para os habitantes de uma grande cidade, presta-nos aqui uma enorme ajuda. Não é necessário querer guardar seu coração, senão confiá-lo ao sangue Eucarístico. É necessário partir do centro e o centro é Cristo, coração da Igreja, "alter ego" de cada fiel. O amor responde ao amor, as forças do coração iluminado pela presença do Senhor se libertam. Trata-se menos de romper com "casca" da existência para encontrar o lugar do coração, que de deixar brilhar o sol do coração, cujo resplendor modificará, pouco a pouco, desde o interior, a "casca" da existência.
Bem sabemos, atualmente, que um defeito, um vicio combatido na superfície da "psique" oculta-se, porém não se cura. Chega-se a ser moderado, porém se preferem os alimentos açucarados e se tem suscetibilidades da antiga criança. Triunfa-se sobre o vicio aparente, porém se "vampiriza" as almas sob o pretexto de guiá-las.
Cristo, no Evangelho, parte sempre do centro, dirige-se diretamente à pessoa, provoca a inversão do coração. A metanóia, no amplo sentido do termo, é isto: voltar ao coração, deixar que o Senhor o encha de luz. A ascese, daí por diante, consistirá em separar, pouco-a-pouco, os obstáculos que impedem o passo desta luz.
Quando aquele que seria, no futuro, São Doroteo ingressou no monastério, quis praticar imediatamente as virtudes mais abruptas e a oração perpétua. Seu padre espiritual, o Ancião Barsanufio, lhe pediu pelo contrário, que construísse um pequeno hospital e que se dedicasse aos enfermos. Mais tarde, Doroteo se queixava de obsessões carnais . Barsanufio, em um "contrato" famoso na história da paternidade espiritual, pedia-lhe que não se preocupasse com isto, que ele tomava tudo sobre si. Pelo contrário, Doroteo se comprometia, sobre pontos precisos, a uma atitude de confiança, de humildade, de caridade. Partia do centro, deixava brilhar o sol interior, pouco a pouco, suas tentações desapareceram por si mesmas.
A "oração de Jesus" pode nos ajudar muito nesta reconstituição de um eixo vital sob o sol do coração.
Os velhos monges dizem que não é necessário temer os momentos de "plerophoria", de plenitude experimentada no mesmo corpo. Ensinam, na perspectiva da ressurreição, um uso não passional da alegria de ser. Pedem que se "circunscreva o incorporal no corporal", até viver com gratidão uma humilde e grave sensação. Marchar, respirar, alimentar-se, tocar a casca de uma árvore, tudo pode chegar a ser celebração. "O Nome de Jesus chega a ser uma espécie de chave que abre o mundo, um instrumento de oferenda secreta, um colocar o selo divino sobre tudo o que existe. A invocação do nome de Jesus é um método de transfiguração do Universo."
Convém que um exercício de relaxamento de tomada de consciência do corpo, não termine por uma euforia imanente ou pelo sonho senão pela invocação. Quanto mais o homem se pacifica e se interioriza, mais deve orar na humildade e a confiança, em "espírito de criança", como um re-encontro em Cristo com Deus Pai, "abba, Pai", como se se orasse pela primeira vez. Esta atitude, somente, pode permitir utilizar discretamente certas técnicas asiáticas de concentração, tão na moda atualmente.
Convém que a invocação esteja presente na amizade e no amor. Enquanto a seu esplendor, necessário nas relações sociais e os ritmos de trabalho, esta poderia ser a medida, o critério de uma ação perseverante e criadora dos cristãos na sociedade.
Simultaneamente, porém pouco a pouco, intervém a terceira etapa, a da participação na luz incriada na comunhão com o Senhor Jesus, comunhão trinitária, o temos dito, pois, na interioridade do Espírito, ela nos conduz para "o seio do Pai".
Gregório, o Sinaita, diz que a oração começa a brotar no coração como as faíscas de um fogo alegre: a luz incriada se manifesta primeiro pelos toques do fogo de uma indizível doçura. Logo, diz o mesmo Gregório, no coração feito consciente, a oração "opera como uma luz de bom odor".
Não se trata de "êxtase" nem de visões. As exaltações místicas dos principiantes devem ser rapidamente sobrepassadas, pois elas poderiam ser fonte de complacência e de orgulho. O Senhor, então se retira para que o homem conheça o último despojamento, a partir do qual será "deificado", porém por pura graça.
Os grandes espirituais pedem desconfiar das visões, pois Satanás pode disfarçar-se em anjo de luz. A liturgia, a salmodia e, sobretudo os ícones, estão ali para fazer entrar o asceta, mais além de todo o fantasma, numa sóbria e muito real comunhão. Os critérios do encaminhamento justo são a paz, a doçura, a humildade e não a exaltação que deixa a alma turbada e, sobretudo, a capacidade de amar a seus inimigos, segundo a exortação evangélica.
Sem dúvida, os maiores - os mais humildes - aqueles que alcançaram o estado da oração ininterrupta que eu invocarei a seguir, tem por acréscimo, atravessado os mundos angélicos, penetrando até o trono de Deus, (o coração inflamado se identifica aqui com o carro de Elias, como no mito judeu), percebido os fundamentos do mundo criado e os confins da história, recebido a visita da Mãe de Deus e dos Santos.
O final normal, porém, desta "ascese" do coração, a transfiguração de todo o ser (compreendendo também o corpo), a transfiguração do cotidiano por uma luz que é um fogo, que não é uma emanação anônima senão o resplendor mesmo do Ressuscitado, a presença secreta do Espírito, a transformação da transcendência inacessível em paternidade amante. A visão, a audição, a inteligência, o amor, tudo se reúne numa única "sensação de Deus", tudo é luz, porém, esta luz é incriada, isto é, re-envia a uma fonte por sua vez inacessível por essência e participável por graça. Tudo é luz, porém esta luz é o conteúdo de um encontro, de uma comunhão. O homem entra então em um ritmo inesgotável de êxtase. São Gregório de Nissa, a partir de um particípio paulino, ("tendido para") formou aqui o termo de "epectasis", onde "epi" designa o "en-stasis", a infinita proximidade de Deus, que se volta inteiramente participável, enquanto que que "ek" desina "ektasis", a tensão amante para este Deus cuja distancia não é abolida, "aquele que se busca sempre", no desconhecimento da fé, pois permanece inteiramente inacessível.
Esta distância, sem cessar, plena em Cristo, sem cessar re-aberta para o abismo do Pai, esta distancia-participação, constitui o lugar mesmo do Espírito; ela se inscreve e nos inscreve no mistério da Trindade; a alma, em vias de deificação, o coração consciente que se inflama e se eleva com as asas da pomba chegam a ser, para retomar uma expressão de Jean Danièlou, universo espiritual em expansão. E o que é verdade na relação com Deus se faz verdade na relação com o próximo e, também, admiração ante a coisa mais humilde.
A "ascese neptica" nos faz compreender definitivamente que o cristianismo não é uma ideologia que não é um saber absoluto, mas o desconhecimento amante da fé e da diaconia. Quanto mais conheço a Deus, mais se me faz maravilhosamente desconhecido. Quanto mais conheço ao próximo, mais o re-encontro com a surpresa da primeira vez. Quanto mais conheço a Criação de Deus, mais perplexo fico por seu mistério (haveria aqui, creio eu, o gérmen de uma nova lógica científica, mostrando que é a irredutibilidade do mistério o que suscita o dinamismo da investigação.)
A vida eterna começa, assim, daqui de baixo. Se vai "de começo em começo, por começos que não tem jamais fim", como diz Gregório de Nissa. Não se trata de "sair do tempo" como a mística da Índia ou de abolir o tempo como no nirvana búdico, senão de ascender a uma temporalidade propriamente eclesial, calcedônica, na que o tempo e a eternidade se uniram "sem separação e sem confusão". O ritmo desta temporalidade é aquele da morte-ressurreição, da cruz pascal. Introduz nas situações de morte de nossa existência - até a última agonia - a experiência que se concentra na do mártir. Os mártires, na história da Igreja, foram os primeiros a ser venerados como santos. Um mártir não é simplesmente, como se crê muitas vezes, alguém que dá sua vida por suas idéias. Um mártir é aquele que, no horror da tortura e da morte, abandona-se humildemente ao Crucificado-Ressuscitado, e por este meio se encontra pleno da alegria da Ressurreição. "Destroçado pelos dentes das feras", converte-se em "pão eucarístico", como dizia Ignácio o Teóforo. Igualmente o monge, na tradição antiga, é por sua vez o "stauroforo" e o "pneumatóforo", portador da Cruz e portador do Espírito, aquele que "dá o seu sangue e recebe o Espírito; e, por isto mesmo, um ressuscitado" capaz de conhecer até em seu corpo, uma plenitude inefável.
Esta temporalidade faz aflorar grandes estratos de paz e de luz na densidade dos seres e das coisas, na monotonia das tarefas cotidianas. O "enstaisis-extasis", no re-encontro do outro se faz assim serviço, amor ativo e criativo.
Esta temporalidade, finalmente, tem sabor de silêncio. Não o mal silêncio do vazio, o silêncio gelado dos abandonados, senão o silêncio pleno, o silêncio divino, essa "linguagem do mundo por vir", como dizia Isaac, o Sírio. A invocação deve então abrir-se sobre o silêncio. Primeiro, por breves momentos de silêncio intercalados entre os chamados. Logo, por uma espécie de plano interior no azul do coração consciente, segundo uma penetração da interioridade "pneumática" do Nome de Jesus. Pois o silêncio repousa no Nome como o Espírito, desde toda a eternidade, repousa no Verbo, posto que constitui a união messiânica, crítica, do Verbo encarnado. E quando o Espírito está presente não é necessário orar, somente calar n'Ele, para retomar, por exemplo, o ensinamento de São Serafim de Sarov.
Diz-se sempre que a música litúrgica, na Igreja Ortodoxa, está a serviço da Palavra. Ela, porém, está também a serviço do silêncio , abre a palavra sobre um interior de silêncio. O mesmo sucede com o canto gregoriano.
A "oração de Jesus" faz do coração de cada um uma cela monástica onde se está "só com o Único" no silêncio. A "ascese" neptica ensina a calar. O silêncio cristão, porém, é de uma palavra renovada. Num momento dado, o inseparável silencioso, o hesycasta, recebe o carisma da palavra de vida, que vai do coração ao coração, palavra-semente.
Um dos afrescos mais notáveis do Monte Athos representa um monge crucificado do qual brotam chamas. Aqueles que são como ele, são "homens apostólicos", que falam do que experimentam. E sua palavra é poderosa com todo o poder do Espírito.
Os outros, e isto é o que eu intento aqui, se contentam desfigurando-se, em apresentar seu testemunho. Tentam ser, com a palavra ou com a pena, o que é, com o pincel, um pintor de ícones. ![]()
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